segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Na cola da mala do Zé


O encontro com o artista de rua, Zé da Mala, conhecido por muitos como o “poeta do buzú”, foi marcado em Ondina. Fui logo avisada: “Estarei sentado no pé das gordinhas" - as famosas esculturas da artista Eliana Kertész, que enfeitam  o canteiro da Avenida Ademar de Barros. 

No horário exato lá estava ele, tão enturmado com as gorduchas, que mais parecia parte do cenário. Simpático e educado, com sua roupa de caixeiro viajante (mistura de poeta e palhaço), o rosto pintado de branco e com sua inseparável mala enfeitada, Gabriel Bandarra (22 anos) me recebeu calorosamente. A idéia era entrarmos no ônibus para que eu pudesse ver de perto (e fotografar) o seu trabalho. Resolvemos caminhar em direção à Barra para que ele pudesse “pegar carona” com os motoristas já conhecidos.

A idéia não poderia ter sido melhor. Nos 20 minutos de caminhada a conversa rendeu tanto, que quando dei por mim a entrevista já estava acontecendo. Nas minhas mãos apenas a máquina fotográfica, nada de gravadores e papel. Na verdade nem precisei. A história desse artista é tão instigante e interessante que com certeza não sairá da minha memória.

Para quebrar o gelo, perguntei como tudo se iniciou. Sem pensar ele foi logo dizendo: - Sempre gostei de aparecer. Quando a família se reunia era certeza eu surgir “do nada” me apresentando. A partir daí, Zé não parou mais de falar diante dos meus olhos radiantes. Com total apoio dos pais, que sempre o incentivaram, Gabriel iniciou no mundo das artes. Por influência do pai, aos 17 anos, se inscreveu no curso de Clowns (palhaço) e daí para o teatro foi um pulo.

A primeira vez que Zé subiu num palco, não foi um palco propriamente dito. O iniciante criou coragem e entrou num ônibus, que na sua cabeça fervilhante, seria o lugar ideal para se fazer ouvir. Mas, ali, até hoje, o artista encontra os maiores testes – quando precisa ter jogo de cintura para lidar com a indiferença e a falta de atenção das pessoas.

Se engana quem pensa que tudo são flores no universo das artes. No começo foi difícil. Gabriel era envergonhado e foi barrado em vários ônibus. Teve que respirar fundo, levantar a cabeça e insistir. Venceu o medo. Agora, esperto que só ele, só entra quando todos estão sentados, prontos para aplaudi-lo e terem um dia mais feliz. 

 Como bom baiano, Zé também tem lá as suas mandingas. Acorda cedo, às 5h30, para buscar o o sustento da família, mas ninguém o faz trabalhar no primeiro ônibus que pega. Primeiro senta, observa, desce e corre atrás de outra condução para aí sim, começar bem o seu dia.

 Hoje, com 5 anos de trabalho no asfalto, além de fazer a alegria dos passageiros do busú, Zé se apresenta em eventos, feiras, faculdades, centros de cultura e pontos turísticos.  Percorre o ambiente com desenvoltura, seguido pelos olhares atentos e curiosos do público recitando contos, letras de músicas, crônicas e poesias. O que importa para o artista é passar uma mensagem que transmita pensamentos positivos para as pessoas. E confessa que já se viu “terapeuta de rua”. "Pessoas me procuram depois das apresentações para desabafarem e pedir conselhos", conta dando risada da situação e relembrando as encrencas que já enfrentou.

Conversa ia e vinha e lá estávamos nós, andando pelo jardim da orla, em direção ao nosso ponto de ônibus. Diante de toda a riqueza dos detalhes, o que mais me deixou impressionada foi o carinho que as pessoas na rua transmitiam para o artista do riso. Raro foi o motorista que passou e não buzinou na sua direção, em sinal de consideração e respeito. 

São todos amigos do Zé. Encantados pela magia e a arte do Zé da Mala, que lhes conta Clarice, Quintana e Bandeira; Que lhes canta Caetano, Jorge Ben e Gabriel Pensador; Que alegra o seu dia-a-dia; Que deu graça à minha noite. 


- Mônica Carvalho -
      08/11/10

As fotos são minhas também  :)

"O artista do povo 
atua assim:
Teu palco é a rua;
a calçada, o camarim"
Anita Costa Prado
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2 comentários:

Caminhante! disse...

Viajei, parece que andei pela orla com vocês...falar da arte é viver-la em todo corpo, acredito que você viveu isso e sentiu ao entrevista-lo.. Não cheguei a conhecer-lo quando morei em ssa. Mais via alguns artistas de ruas. Tenho um pensamento que lá talvez seja o habitat natural da arte, onde nasce as principais manifestações e respira o ar puro de liberdade. A poesia encanta seduz, nos envolve corpo e alma e sentimentos.. Pode nos fazer desejar e sonhar com o proibido e acreditar que é possível...talvez essa seja sua principal façanha, o de alimentar os sonhos..por que sonhando podemos realizar o impossível.

Simplesmente Amor disse...

Incrível filha...quero pegar um ônibus para me alegrar com Zé da Mala...e passar um dia feliz!
Obrigada!